Dane-se o que você pensa sobre mim


Em primeiro lugar, antes de qualquer coisa, quero começar voltando atrás em boa parte dos meus pedidos de desculpa. Quero cancelar o que disse antes. Quero, para ser sincero, desdizer. Eu quase nunca quis me desculpar, mas fiz isso porque a insegurança praticamente me ameaçou com pensamentos cortantes e um autojulgamento impiedoso que nunca me absolveu. Pelo contrário. Sempre me foi um verdadeiro promotor, responsável por diversas crises de choro, noites em claro e pensamentos atordoantes.

Despeço desculpas porque a maioria desses pedidos foram feitos por impulso, numa tentativa desesperadora de ser querido, de ser gostado. Adquiri uma espécie de doença, de lepra, de praga, de peste que me corrói o estômago e causa terríveis tremores nas pernas sempre que penso que alguém não me quer bem. A insegurança, hoje, dominou todos os meus dias, como as nuvens de uma tempestade que mancha de cinza escuro o céu, que até instantes atrás era azul cor de felicidade.

Não sei bem quando, na linha do tempo da minha história, deixei de ser aquela pessoa bem decidida, segura de si. Não sei sequer, para ser sincero, se um dia fui assim. Mas a verdade é que os últimos momentos têm sido angustiantes. 

Chega! Já não suporto mais o peso de agradar a todo mundo, de atender a tantas expectativas, de suprir tantas necessidades, de ser a pessoa que é querida por gregos e troianos, mas faz cara feia para o espelho. Já faz um tempo que eu deixei de ouvir justamente a única pessoa a quem eu, de fato, deveria dar ouvidos – a mim mesmo.

Só minha gastrite e os travesseiros da cama sabem quantos sorrisos dei quando a vontade era mandar quem quer que seja para o quinto dos infernos, mas a minha insegurança me fez relevar, repensar, ou pior, me fez enfiar o rabo entre as pernas e assumir qualquer culpa, mesmo que não fosse minha, para que a minha versão resumida, a minha versão redimida, a minha versão fofinha conquistasse qualquer migalha da sensação de se sentir querido por alguém.

Hoje, neste segundo, já não suporto mais rir das piadas sem graças, dos comentários ridículos, das músicas de péssimo gosto. Já não consigo mais tolerar gente com um ego enorme, um nariz em pé, que me aponta o dedo e diz que eu não sou bom o suficiente para ser qualquer coisa. 

O mundo, meu amigo, vai fazer você se sentir assim – feio, desproporcional, desinteressante, amargo, chato, pessimista ou qualquer coisa ruim, porque é assim que as pessoas mais egoístas conseguem se destacar. Elas te diminuem para, assim, se exaltar. 

Eu nunca quis ser a melhor pessoa do mundo. Eu nunca quis ser a pessoa mais bonita, interessante, agradável ou qualquer aumentativo dos sentimentos. Eu, de um jeito ridículo, só passei a sentir uma necessidade absurda de ser querido. Mas, a essa altura do campeonato, tanto faz.

Retiro agora, nesse segundo, o peso das minhas expectativas das costas. Não todas, é claro, porque ainda não sou mágico e estou longe de fazer milagres, mas quero firmar um contrato comigo mesmo – vou deixar quem quer que seja pensar o que quiser de mim, mas que os que pensem qualquer coisa ruim se danem. Lidem com os dados. Porque eu, ah, eu já cansei de implodir bombas atômicas no peito.

Quero ter o prazer de ser quem eu sou e conquistar qualquer sorriso bobo de quem gostar de mim por isso. Quero dizer qualquer coisa sem precisar rever pelo menos umas cem vezes a mesma frase para saber se realmente soa engraçado. Quero ter o corpo que tenho, do jeito que ele é, sem me preocupar se alguma pessoa vai olhar para ele e tecer uma ofensa ou comentário maldoso.

Quero redescobrir o que sempre fui ou ainda sou, mas a insegurança mascarou. E olha, amigo, te digo com toda a sinceridade do mundo – não tem nada pior do que deixar de ser quem se é para ser quem as pessoas esperam que a gente seja. 

Já me desdobrei demais fazendo o meu coração de papel em formatos de origami. Agora, chegou a hora de me desamassar e me mostrar por inteiro, sem medo de, por não ter mais um formato engraçado, ser menos querido. Certo mesmo está quem tem coragem de dizer – goste de mim ou dê o fora. No fim das contas, é sempre melhor assim. Só fica quem quer ficar.

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