Eu não tenho amigos


Queria começar dizendo que não tenho amigos. Conhecidos, talvez, mas, a partir do momento que você precisa de um ouvido para gritar e não existe nenhum sequer disponível, acho que já se pode ter essa ausência como parâmetro para a falta de amizades. Como falta de ombros, de colo. A gente, às vezes, precisa aceitar as coisas mais doloridas para que elas, finalmente, comecem a sarar.

Durante a minha vida toda sempre estive cercado de muita gente. Quando digo muita, não me refiro a duas ou três pessoas. Sempre tive dezenas de pessoas por perto. Olhando mais perto ainda, agora consigo perceber que quase todas elas não passaram de colegas, companheiros, pessoas que não tinham nenhum laço duradouro, tampouco compromisso de se manter próximas a mim o tempo todo. Só por momentos. Principalmente os felizes.

Acontece que os dias andam tão confusos, não é? Para você também? Para mim, os dias têm se atropelado. Tenho me perdido facilmente entre tudo aquilo que quero e me afogado nas lágrimas que escorrem por tudo aquilo que não posso ter. O principal problema nisso tudo é que quando busco alguém, qualquer número na agenda que seja, para qualquer desabafo, eles desaparecem. Variam entre – ocupados demais ou desinteressados demais.

Ilógico é perceber que eu sempre estive e, assustadoramente, estou disponível. Cansei de dormir de madrugada oferecendo conselhos, mudar a rota do meu percurso para fazer favores ou guardar as minhas próprias dores no bolso para curar feridas alheias. Eu sempre me doei demais. Eu sempre fui companheiro, cúmplice, amigo demais. Eu sempre fui amigo das pessoas que só posso considerar colegas. Conhecidos. Às vezes, desconhecidos por completo.

Nessa de estar sempre pronto para qualquer emergência, fui tendo algumas urgências, principalmente de dois ou três encontros, uma ligação, cinco copos de cerveja ou qualquer outro drink barato que ajude a diluir os gelos da vida, mas, no lugar disso, só encontrei números. Uma agenda repleta de contatos. É. É triste perceber que a sua lista de amigos se transformou numa listas de contatos.

Nessa de tentar eu mesmo me virar com os meus problemas, fui vomitando alguns nas palavras que rabisco, nos filmes que vejo, nos livros que leio. Fui gritando outros através das músicas que transformo em playlists. Compensando a falta de algumas pessoas com atividades do cotidiano ou travesseiros na cama. 

Tentei entender, buscar uma justificativa para sanar esse problema de ser amigo dos meus colegas, mas, no fim das contas, percebi que nós somos pessoas extremamente diferentes. Ou melhor, eu sei me moldar para caber nas suas realidades, mas eles... Olha, eles não conseguem me entender, me aceitar, não conseguem me abraçar por inteiro. Ou não tentam. Não retribuem os mesmos esforços que eu faço. E não. Eu não estou cobrando. Não estou pedindo. Estou só... Observando. De fora. Como alguém que ficou excluído das últimas reuniões, dos últimos encontros.

Não vou mentir que não dá para suportar. Dá sim. Na maior parte do tempo é até tranquilo. Mas, às vezes, nossa, às vezes chego a sangrar por isso. Mas faço do meu quarto, meu mundo. Acho que não dá para se ter tudo. Eu não tenho amigos, ou não tenho os amigos que gostaria, ou não tenho amigos quando gostaria, mas tenho a minha própria companhia. Tudo isso me ajuda a encontrar quem eu sou. Vamos terminar com essa lição de moral, que é para suavizar as coisas.

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